segunda-feira, 28 de junho de 2010

.Nome Próprio




Que bela voz me alumiou a alma na noite em que me vi só. Se ao menos me poupasse da cruel secura em meu peito lúgubre ou se viesse servida de palavras sinceras, capazes de tornar bem acompanhadas as solidões alheias. Não fossem as sublimes ilusões que me preenchem de ânsia diria, com toda certeza, ser este acento malentendido apenas a mesma infinita sede de completude que há de acompanhar toda alma humana. E, ainda que os passos lá fora me remetam aos mais deliciosos devaneios, me insisto Rômulo: insatisfeito e eterno refém do mundo real.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

.Clara


       
      Clara seria sempre um mistério para mim. Quando éramos pequenas lembro-a como o espelho do meu futuro. Tudo que queria ser. Sentadas no banco de trás de um velho carro em uma viajem qualquer e Clara sempre distante. Seu corpo sob mim e seu espírito do outro lado do orvalhado vidro; sempre ausente. Suficiente em seu misterioso mundo interno. Como queria viajar em sua cabeça, saber tudo o que pensava com aqueles olhos distantes. Mas talvez fosse melhor não incomoda-la; grandiosas idéias estavam sendo vividas ali. Minha cabeça repousava em suas coxas mirradas de criança que, para mim, eram como o mais macio recosto de plumas. Os postes, apressados, ultrapassavam o carro em alta velocidade com suas luzes agressivas que, logo, eram divididas em mil pelas gotículas no vidro e percorriam, como um filme projetado, a tela de minhas pestanas serradas. Me alucinava ver por entre os cílios dos olhos mal abertos a seriedade tão adulta da menina Clara. Absorta em devaneios quaisquer. Que alvo seus olhos apontavam? Ás vezes, o rosto sério era subitamente enfeitado por um tímido sorriso; outras por uma misteriosa lágrima. A lágrima era o mais belo adorno a completar seu rosto ensimesmado. Lhe preenchia do hermetismo que me cativava. Então, eu respondia com um sutil carinho ou abraço disfarçado em um movimento natural de meu cínico sono. Mas, de toda forma, troquemos o assunto. O tempo não volta atrás, não é mesmo? E a maturidade por ele arbitrariamente imposta nos emburrece e distancia do verdadeiro que éramos quando miúdos. Clara se tornou o seu oposto. E eu, o que lia de sua imagem no velho vidro de carro.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

.Musa




"O assombroso de seu instinto simplificador era que quanto mais passava por cima dos convencionalismos em obediência à espontaneidade, mais perturbadora ficava a sua beleza inacreditável e mais provocante o seu comportamento para com os homens. (...) Inconsciente da aura inquietante em que se movimentava, do insuportável estado de íntima calamidade que provocava à sua passagem, Remedios, a bela, tratava os homens sem a menor malícia e acabava de transtorná-los com as suas inocentes complacências."

Gabriel García Márquez

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

.À


  Foto: Autor Desconhecido


        Meu bem, um pouco mais do que há de humano, de peito aberto. Não te vejo de olhos  postos ao mundo, para as pessoas ao seu redor. O mundo é, querida, e você presa dentro de seu casulo. Onde suas pequenas richas remoem-se sem sentido, sem importância. Como pode ser assim? Um pouco menos do seu drama, meu bem, um pouco mais dos outros. Você mal sabe o peso do que diz. Se sabe, pior. Seu sadismo dói. Um pouco mais de silêncio. Se cale e olhe, perceba. Prefiro lhe ver como uma inconsciente. Antes ignorante à irresponsável. Será que sabes o limite de sua ficção? Agrádavel e mortal. Te vejo condenada à insatisfação eterna. Não me leve a mal. Mas, no fundo, não cumprimos todos a mesma sentença? 

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

.Banhos de Alice




Foto: Marta Soares
Prato de Flores - Nação Zumbi


        O sol se espalhava sobre o seu rosto branco. A luz escorria pelo seio da face e respingava leve pelo chão. Há quantos dias a vida não era tão linda. Um enorme sorriso abriu em seu rosto. Para Alice, viver não podia ser simples. Tinha de ser grande; de transbordar sua alma em intensidade. Mas não era sempre assim. Quase nunca. Durante quase todo o tempo buscava, incrédula, pelos curtos momentos que lhe faziam realmente sentir. Sua alegria, agora, era assim, desmotivada. Não precisava se explicar, simplesmente estava nela. Um momento em suas mãos. Ela sentia. Quem dera, Alice, anotar em um papel um mapa dos sentidos. Voltar ao mesmo lugar de sua cabeça, o mesmo estado que lhe fazia viva, presente. Era um banho. O sol, decifrado pelo colorido vidro entreaberto, se espalhava sobre seu rosto branco. E a luz, assim, esparramada como um felino preguiçoso, escorria pelo seio da face e se encaixava leve nos azulejos do chão. A vida se passava sob a ducha que lhe partia o corpo ao meio, sem passado, sem futuro. Duas metades dedicadas à um presente só. À um presente, e só.
        Mas outra pele lhe faltava ali. Ser guardada em um par de braços, que lhe eximissem toda dúvida. Um alguém que escolhesse um entre tantos futuros possíveis e lhe presenteasse embalado em segurança, e então: Alice. Finalmente, ela própria... Pobre bela. Sabia mesmo inverter o mundo naqueles banhos. Todo mal se perdia e, diluído em água, impregnava os azulejos do chão. Uma boa bucha e muita espuma. Esfregou cada centímetro da pele branca. As orelhas, deixou. Agradava-lhe um pouco de sebo. Lavou a alma. Abriu o peito e escovou o já combalido coração. E, por último, regou a planta dos pés. Secou-se e, por fim, lustrou as retinas. Agora, de corpo e alma limpos e a mente vazia, estava pronta para voltar à realidade.

Rômulo Medeiros

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

.Acer Aspire One


*Jean Michel Basquiat


Há nessa luz que me suga, uma espécia de sedução. Um aspirador de mentes, que me emburrece e me impede de pensar. Me acelera, me irrita, me seduz, me tortura. Me torna um inseto desprezível, adicto à seu algoz acesso e quente. Que me queime esta maquininha de engolir tempo. Sou um glutão.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009


Ps: Dê o play antes de ler.



Navilouca - Pedro Luís e a Parede


Meus olhos vesgos de proximidade encararam a bala. Com um toque, carne e ossos seriam perfurados; a massa cinzenta abriria caminho para o tórrido metal que, alojado em um canto qualquer de meu crânio, me queimaria por dentro. Aquela sensação já não me assustava mais. Não é preciso ter uma bala disposta a atravessar uma cabeça para se notar o quão frágil é a vida. Segue frágil. Sem saber sequer aonde quer chegar. E jamais chega. Termina antes do fim. Mas segue sempre, sem pausas, rumo próprio. Vítima do acaso; amante do azar. Antes assim. Vida é livre; vida é alma. E o corpo, sua prisão. Doce lar do drama humano. A liberdade mais uma vez estava em minhas mãos, ao toque de um dedo. Corpo e alma mancomunados em uma conspiração emancipacionista. E os dedos que hesitavam em agir. Há dias a mesma cena patética. A bala no escuro túnel zombava de mim e eu a mantinha ali. E a alma, escrava conformada, ardia uma dor qualquer..